O LADO ESQUERDO DO PEITO

Por 22 de dezembro de 2014Inicial

dendê

1. Da fratria à philia, desenha-se na alma um percurso que, ao mesmo tempo em que amplia seu horizonte afetivo, também traz para perto, para dentro, aproxima e ensina as lições da intimidade. Esse percurso se chama amizade. Muitas são suas metáforas, seus símbolos, suas imagens, que apresentam aquele que já foi entendido, num plano individual, como o mais elevado eros de que a experiência humana é capaz. Fidelidade, lealdade, altruísmo, confiança, confidência, franqueza, afeição profunda, cumplicidade, companheirismo são alguns de seus sentimentos mais nobres e bem difíceis. Também difíceis e trabalhosas são as torturas de seus afetos mais sombrios: traição, rivalidade, inveja, ciúme, inimizade, ódio, disputa, agressão, rupturas.
A amizade espelha os deuses e os heróis, espelha a natureza, espelha o cosmo, espelha a sociedade e a política em seus enlaces mais elaborados. Os laços políticos, as relações na polis, são, em última instância, relações de amizade — ou deveriam ser — e tudo ali depende dela. Dos Três Mosqueteiros aos Três Patetas, da bravura à trapaça, passando por tantos modelos paradigmáticos ao longo da história da imaginação tais como os relacionamentos entre Gilgamesh e Enkidu, Rumi e Shams de Tabriz, Davi e Jonatas, Dom Quixote e Sancho Pança, Sherlock Holmes e Watson, O Gordo e O Magro, a amizade revela a riqueza da alma, a riqueza de sua alma, e revela até onde ela pode chegar com seus sonhos, seu heroísmo, sua comédia. A filosofia, a sociologia, a arte, a literatura, a crônica dos costumes, o cinema, as séries de TV e a fotografia se ocuparam e se ocupam constantemente dela. Mas qual será sua psicologia? Afinal, para que servem os amigos, e o que a alma de fato intenciona com esse eros? Perguntas difíceis, talvez sem respostas únicas, ou conhecidas. O que a sabedoria proverbial e as locuções populares revelam desses laços? E a pergunta mais importante: afinal, o que é aceitar o outro como ele realmente é? Quando isso se torna possível? Qual a luz desse mistério que está encerrado no lado esquerdo do peito?
A breve meditação que procuro elaborar aqui aborda tais questões do ponto de vista da psicologia junguiana arquetípica, buscando estender a compreensão em torno do panorama mais amplo do arquétipo fraterno. Entendo que esse arquétipo está na base dos padrões inconscientes que modulam e tornam possível para nós a experiência tão vital da amizade. Escrevo essas notas a fim de compreender melhor o grande desafio da amizade, que se inscreve para mim na tarefa ainda maior da fraternidade.

2. O “lado esquerdo do peito” junta a esta reflexão uma poderosa metáfora que lança nosso tema no lugar certo: o coração, a vida afetiva. Jung falou da importância do lado esquerdo na alquimia, e mencionou o Caminho da Mão Esquerda do tantrismo indiano ao trabalhar com uma das pranchas do Rosarium Philosophorum. Nesta prancha, Rei e Rainha alquímicos mostram sua ligação essencial através da união pela mão esquerda. O Caminho da Mão Esquerda é também o caminho da Magia Negra na tradição esotérica ocidental, e normalmente seus adeptos são chamados de bruxos. Psicologicamente, o lado esquerdo é o lado obscuro, inconsciente, caracterizado por Jung como “ilegítimo, morganático, emocional e instintivo.” Portanto, a metáfora do esquerdo coloca os laços emocionais num plano sinistro, o plano do coração, “de onde vem não apenas o amor mas todos os maus pensamentos a ele conectados,” novamente segundo Jung (CW 16, §§ 410, 419). Em nossos amores e amizades estamos portanto em terreno ambíguo, instintivo, mais escuro do que claro, e a alma dança propiciando luz e sombra.

3. Para começo de conversa, o sentimento da amizade é múltiplo, policêntrico, digamos, politeísta: também nela incidem os Deuses, e nossa psicologia mostra que ela pode ser vivida no tom afetivo de diferentes arquétipos. Há vários tipos de amizade. Do puro coleguismo trivial de que nossas vidas estão cheias, ao companheirismo mais leal e comprometido daqueles a quem chamamos de melhores amigos; do amigo imaginário ao amigo morto; da amizade epistolar dos antigos (os pen friends) aos amigos virtuais, que adiciono nas redes sociais muitas vezes sem conhecer, uma amizade sem corpo; do preto-no-branco das relações de verdadeira sinceridade ao descompromisso da amizade colorida. Sim, esse vínculo se mostra tão plástico e variável quanto essencial: não vivemos plenamente sem amigos; a vida é triste sem eles. Tanto para Platão quanto para Aristóteles, até a Renascença e seus filósofos e escritores, ela, a amizade, é tida como a consequência natural de um eros bem formado, e a capacidade para a amizade marca a medida para a qualidade da alma de um homem.
Às vezes ela está aqui, entre nós, surpreendendo como um espanto na intimidade dos laços mais profundos, mais vinculados e silenciosos, quando então basta um leve tom de Afrodite e ela estará quase na beira do amor carnal. Às vezes a amizade está no mundo, querendo abraçar o mundo e suas ideias, suas revoluções, amor de camarada. Ou um toque de Hermes e a amizade é malandra, viajando nas bordas das vantagens, das espertezas, das trocas e das incertezas. Até a formalidade apolínea das convenções, que muitas vezes estão ali para guardar e proteger o afeto, desenha uma amizade não menos profunda ou significativa.
Uma coisa é certa, não existe amor sem amizade, e dizemos que a amizade é um tipo de amor, um tipo de amor poderoso, pois que enfrenta e vence barreiras de idade, raça, cor, preferência sexual, família, tribo, partidos, ideologias, geografias. Em outras palavras, a amizade vence as barreiras do ego, pois somos amigos muitas vezes de quem não queremos, ou não intencionamos, ou não sabemos, e tantas outras vezes queremos ser amigos daqueles de quem não conseguimos, um fracasso que deixa a alma perplexa. Isso me faz pensar que a amizade pertence à anima, não a nós. Ela é quem decide, nós a seguimos. Ou não seguimos, e nos empobrecemos. Já se disse que a flecha de eros cai onde ela quer (uma verdade psicológica que James Hillman enunciou), e isso tanto no amor como na amizade. Aqui, para mim, a lição da anima é que nossa existência não é solitária, mas uma existência com o outro. O amor nunca é sozinho, como uma abstração da mente apenas, mas é sempre um amor com o outro. Chamar esse Outro de “Inferno”, num niilismo existencialista pessimista, criando apenas o vazio e a solidão, ou de “Paraíso Perdido”, na projeção ingênua e inconsciente das carências oceânicas existenciais mais profundas, criando apenas dependência e mistura, é secundário à obrigação anímica da convivência. A anima é relacional, e em nossa psicologia já foi chamada de “função de relação”. Mediadora, disse Jung. E lembrando o que disse Montaigne em seus famosos Ensaios, um livro escrito, diga-se de passagem, para dar conta de amenizar a dor de uma grande amizade perdida, “a amizade nutre-se de comunicação.” “Sua prática apura a alma,” também diz o filósofo (MONTAIGNE, 1972: 96, 97). Esse “apurar” da alma depende da convivência, e toda convivência, toda convivência feliz, aspira a ser uma amizade, sonha uma amizade.

4. A amizade é uma via de duas mãos: se não houver troca, não há amizade. Mas troca não é comércio. Trocas pagas não são amizade, são  comércio ou, muitas vezes, prostituição — qualquer que seja o gênero, do corpo, da alma, dos afetos, das ideias, dos valores. Mas se os sentimentos e afeições a que damos o nome de amizade são um tipo de vínculo essencialmente amoroso, a rigor ele não contém a discórdia, o ódio, a inimizade — embora, claro, possa e talvez deva conter a divergência, a diferença, a crítica e a censura. Afinal, o amigo nos corrige. Diz-se que para sermos amigos devemos amar, respeitar, questionar e aceitar — quatro verbos difíceis, quatro ações no mundo para as quais não cessamos nunca de nos preparar, para as quais nunca estamos totalmente prontos. Especialmente numa cultura como a nossa, a ocidental, para quem o padrão das relações simétricas começa mitologicamente com um assassinato, irmão que mata irmão, Caim e Abel. Todo mundo conhece essa história que coloca logo de início as relações de horizontalidade num panorama sombrio, trágico. A inimizade, portanto, é, a meu ver, um tipo de vínculo partido, desfeito, destrutivo, onde na verdade as lógicas que a adentram e constituem são as do poder e não do amor. Acho importante não minimizarmos essa sombra, colocando tudo no mesmo balaio, mas enxergá-la como tal: o que mais me interessa aqui, contudo, é a compreensão dessa complexidade do amor a que chamamos amizade. Pensar a amizade é refletir sobre esse tipo de amor. O contrário da amizade não é a inimizade, é a indiferença, é não estar vinculado, é não amor. Geralmente não temos verdadeiros inimigos, pois ali onde os enxergamos há quase sempre a projeção de uma sombra não integrada. Ainda estamos presos em nós mesmos. O ódio e a inimizade são um tipo de vínculo muito bem focado, não indiferente. Esse vínculo enxerga o Outro com nitidez alucinante.
Talvez seja mesmo como já sugeriu James Hillman com relação a toda “coisa” psíquica numa expressão muito feliz que deve ser lembrada aqui quando falamos de amizade: diz ele que devemos “amigar” (“befriend”) os sonhos, tornar-se amigo do sonho, ou seja, “participar dele, entrar em suas imagens e ânimo, querer conhecê-lo melhor, entendê-lo, brincar com ele, vivê-lo, carregá-lo, familiarizar-se com ele, enfim tudo o que se faz com um amigo” (HILLMAN, 1985: 58). Essa é a atitude junguiana clássica, essencial, que nos conduz, nada mais nada menos, a uma verdadeira experiência da interioridade, a um “sentido de alma” — o que nos mostra novamente que a amizade é coisa da anima, assunto de alma. E mostra também que a alma é coisa com que  fundamentalmente temos que nos relacionar.

5. Também a astrologia, como campo simbólico-mitológico, ajuda-nos a perceber, mapear e compreender psicologicamente o imenso território do Outro. Ela apresenta três casas, ou zonas zodiacais, para se referir a nossas experiências de alteridade; ao mapeá-las, a astrologia as diferencia. São as casas dos relacionamentos, e claramente simbolizam três níveis distintos das relações simétricas que podemos imaginar, aprofundar e experimentar. Elas naturalmente se interligam e se informam mutuamente. Essas são as casas do elemento ar, que preside sobre as relações de paridade. Isto quer dizer que o ar é, como símbolo, o elemento próprio das relações; paradoxalmente, ele atrai as experiências psicológicas da distância, da independência e do não envolvimento. Balança, portanto, os polos extremos de separação e simbiose que estão na base mais profunda de todos os relacionamentos.
Assim, a astrologia, entendida como uma psicologia dos arquétipos, nos conta como essas relações são construídas: na terceira casa, correspondente ao signo de Gêmeos, que é a casa do irmão; na sétima casa, correspondente ao signo de Libra, a casa da parceria; e na décima primeira casa, correspondente ao signo de Aquário, a casa da amizade. Do irmão, ao parceiro, ao amigo: um percurso na horizontalidade.
Vejamos como funcionam simbolicamente esses níveis. A terceira casa, que rege o nível do Irmão, é a mais primordial e irá influenciar os desdobramentos de nossa capacidade de nos relacionarmos igualitariamente nos níveis do parceiro íntimo e, depois, dos amigos e nos grupos. A terceira casa, portanto, “simboliza nossos encontros primários com os outros que dividiram conosco nosso ambiente, principalmente os irmãos, mas também… os primeiros colegas de escola.” A sétima casa simboliza “a esfera da igualdade num nível adulto, onde encontramos aqueles que sentimos como familiares e que complementam o que percebemos como faltando em nós mesmos.” Aqui, encontramos as relações de mutualidade e reciprocidade, naqueles com os quais podemos sonhar e dividir projetos de vida, pois nos sentimos compromissados e íntimos, o que engloba tanto o mundo do casamento, os cônjuges, o projeto familiar, quanto o mundo dos negócios e das realizações profissionais, os sócios e os parceiros dos empreendimentos particulares. Já a décima primeira casa, que aqui mais nos interessa, a casa da amizade, do Amigo, “representa nossos encontros com os iguais na comunidade fora da família, o que inclui os ‘outros sociais’ — colegas, associados, amigos e profissionais da mesma área. Esta é a casa dos grupos, das organizações, reminiscentes de nossa primeira experiência de uma organização — a família” (CLARK, 1999: 162-180).
Podemos entender perfeitamente que esses níveis estão interligados, pois os sistemas simbólicos os colocam no mesmo horizonte afetivo. A philia não só emerge, como também depende da fratria. A fratria, arquetipicamente falando, é matriz da philia — exatamente o que nos permite entender os laços de amizade eletiva como laços fraternos, laços que, em última instância, se inscrevem dentro da lógica desse arquétipo. São laços e expressão de um eros que Platão entendia como o mais alto nível do Amor compreendido num plano individual. Assim, o arquétipo da fratria parece ser um campo mais amplo de atualizações de experiências afetivas, onde entram os amigos mais íntimos, os quais, tantas vezes, chamamos mesmo de “irmãos.”
Nossas experiências como irmãos determinam e organizam nossa capacidade de fazer e manter amizades. Posições, papéis, modos de amar, esperanças e desejos não resolvidos, fracassos e ressentimentos, vergonhas e culpas forjados no sistema fraterno de origem são levados aos relacionamentos com nossos amigos e colegas, e ali são constantemente re-ativados, isso tanto no cotidiano dos laços mais íntimos com nossos melhores amigos, quanto na formalidade e nas obrigações das relações nas organizações profissionais, nos grupos e na comunidade. Nosso irmão é nosso primeiro igual, e com ele se formam as alegrias, as tristezas, as modulações, as expectativas e as feridas das relações simétricas, regidas como são pelo arquétipo fraterno. Em outras palavras, nossos irmãos reaparecem para nós em nossos amigos.  Nossos amigos se tornam nossos irmãos. Sendo assim, as relações de amizade também se estendem na vida como um campo para redimir as feridas e os conflitos do sistema fraternal. Isso não é pouca coisa.

6. Amizade é aceitar o outro como ele realmente é. Esta era a pergunta do início: como fazê-lo? Por que fazê-lo? Um lugar-comum é dizer que a amizade é fundamental porque nossos amigos são nosso espelho, que através deles podemos nos enxergar naquilo que somos. Que bobagem. Aceitar o outro como ele realmente é não tem nada a ver com isso. Para mim, essa ideia de “espelho” nos mantém trancados em nós mesmos, procurando apenas por nós mesmos, enxergando apenas a nós mesmos nas tais projeções inconscientes da sombra. Logo Narciso, esse rapazinho sedutor, estará por perto, e com ele muita encrenca.
É claro que existe espelhamento na amizade, e a imaginação especular é verdadeira em si, mas prefiro pensar que um amigo não é um espelho, mas uma janela para o mundo, para outro mundo. Acho que precisamos menos de espelhos e mais de melhores janelas, janelas com boas e belas vistas. Janelas que permitam enxergar outros mundos, ou o mundo como ele realmente é.
Este trabalho também poderia se chamar “A ponte e o labirinto.”  Com essas duas imagens, com essas outras duas potentes metáforas para a amizade, quero então terminar essas reflexões. Um amigo serve, não para nos espelhar, mas para nos ajudar a sair de nós mesmos, a aprendermos finalmente a aceitar o outro como ele realmente é. Um amigo, um amigo de verdade, é um alívio. Por isso, tanto prazer na amizade. Sem conseguir fazer pontes, simplesmente isolados, desaparecemos. Um amigo nos tira de nós, e é esse seu valor, nos levar para um outro mundo, um mundo que talvez compartilhamos mas que também precisamos descobrir. Isso nos enriquece, apura a alma, como disse o filósofo. O sentido etimológico de apurar é aperfeiçoar, mas também descobrir. Descobrimos sobre nós mesmos ao construirmos pontes verdadeiras, não apenas ao retirarmos projeções. “Ponte” significa comunicação no mesmo nível, ligando partes afins, portanto é uma imagem magistral de simetria.
A ponte tem um quê de Hermes, tem um quê heróico, um quê de Eros; o labirinto é a alma, a anima e seus enredos, seus emaranhados. Entre labirintos e pontes nos movemos, ora perdendo-nos dentro de nós mesmos ou no mundo, sem saída, enredados em complexos e complicações, em apuros; ora em conexão, projetados para o Outro, em direção ao Outro, apurados, comunicantes, em comunidade.