O AMOR NEGRO

Por 29 de setembro de 2014Inicial

No amplo espectro da literatura erótica no Ocidente, e à sombra enigmática da imensa figura do Marques de Sade, a História do olho, de Georges Bataille, A história de Vivant Lanon, de Marc Cholodenko, e Cartas de um sedutor, de Hilda Hilst, são obras que apresentam, no século XX, e cada uma a seu modo, os caminhos tortuosos e difíceis que a alma percorre quando seu amor apresenta-se desviante, perverso, intolerável. As diversas perversões a que está sujeito o eterno enlace de Eros e Psiquê falam mais da alma imaginativa que do amor depravado. É nesse amor, às vezes tão próximo da violência quanto da delicadeza, que verificamos os extremos da capacidade imaginativa da alma erotizada. Esse amor encontra nas parafilias, práticas sexuais rejeitadas socialmente, seu desafio maior à alma, e com elas pode tantas vezes fazê-la adoecer. Mas, o que quer a alma quando toma um caminho luxuriante? E o que é mesmo esse caminho quando tornado desviante? A rota desviante ilumina aquela que a psicologia chama de normal. Sadismo, masoquismo, exibicionismo, fetichismo, frottage, pedofilia, voyeurismo, incesto, coprofagia, urofagia, zoofilia, necrofilia, felação e cunilíngua são algumas de suas modalidades mais conhecidas e repetidas. Ilustres personagens, da ficção e da vida real, gênios da literatura, das artes e das ciências, políticos e generais famosos — uma gente de aparência muito decente está entre os famosos adeptos, no privado de suas vidas ou de suas relações, de uma ou mais dessas práticas. Além do que podem imaginar, hoje e sempre, ilustres ou não, de forma sempre surpeendente e infinitamente, as almas de eternos apaixonados pelas mais inusitadas taras. Aqueles livros, e essas práticas, dão conta de nos mostrar maneiras de amar que estão no limite do humano, lá onde o próprio amor está no limite do horror.

“O amor negro: perversões, taras e outras observações amorosas”, em Psique & Imagem, 2012.