ESBOÇO PARA UMA ALQUIMIA DO AÇÚCAR

Por 28 de julho de 2016Inicial

O conceito de imaginatio é talvez a chave mais importante para a compreensão da opus.
— C. G. Jung, Psicologia e alquimia, 1944

1. Doce e amargo na alma

Consideremos a docilidade. Quais são os processos do doce (e do amargo) na alma? Como o açúcar, e toda a experiência que é doce, influencia a alma, molda e modula suas perspectivas e ações no mundo? E o que é esse adocicar, sempre tão ligado ao amargar?

Todo repasto, modesto que seja, finaliza-se com uma sobremesa. A sobremesa é o momento mais sensual da refeição, e a ela naturalmente pertence o doce, principalmente o doce. Coroando a refeição, doce é o que vem depois, trazendo sempre a qualidade do irresistível, exaltando a alimentação. O doce de sobremesa marca o zênite do prazer bucal ligado ao alimento: na ponta mais avançada do repasto está a elaboração doce. Elaboração passional. Várias culturas entenderam e praticaram isso. A sobremesa puxa pelo fundo mais irracional e pelo desejo puro, também desejo de pureza. O momento da sobremesa, muitas vezes mais preciosamente esperado que a própria refeição salgada — sobremesa em casa ou fora dela em restaurantes e confeitarias —, é sempre um momento delicado, de expectativas profundas, luxuriantes, penetrando dobras rebuscadas da alma onde muito de satisfação está em jogo explícito, onde dançam os humores mais voláteis, mais exigentes, mais capazes.

É, ao mesmo tempo, momento de relaxamento dos sentidos, de mais e mais imaginação, trazendo cores, formas e sabores mais livremente que a seriedade do sal, quando até a obrigação biológica de alimentar o corpo físico relaxa, afrouxa-se, sonha e brinca. A nutrição doce é uma nutrição lúdica, explora e excita a criança arquetípica. Doce: “uma forma de ser alimentação sendo também recreação…”.[1]

São, portanto, os momentos da sobremesa os mais intensamente dedicados ao ornamento, ao enfeite, à invenção, à fantasia mais franca e colorida de esculturas e decorações, grandiosas ou pequenas, ao prazer visual de cores e formas — coisa com que muito bem sabem se haver os chefs-pâtissiers das edificações monumentais de pièce-montées feitas até hoje no mundo inteiro. Mas a fantasia está igualmente presente nos docinhos finos de confeiteiro (ou nos nem tão finos das padarias, armazéns e vendas simples de todo o interior), as pequenas joias de açúcar, mínimas e delicadas, tímidas ou espalhafatosas, enfeitados, vidrados, trazendo sempre surpresa e lembrança, lembrança e surpresa. Arte doceira, “que é arte, a do doce…”.[2]

Da sobremesa mais elementar e caseira, ainda que bem inventada, de doces em formas graciosas de bichos, flores e figuras, por exemplo, até os majestosos monumentos de açúcar de um Carême, ela é arquitetura. A arte doceira é uma arte da construção, do projeto, do cálculo, da proporção, da ocupação poética do espaço. Por isso a sobremesa, e a doçaria especialmente, ser tantas vezes tão mais atraente do ponto de vista da arte visual, da estética, que da arte gulosa. Ela é como a joalheria, arte filigranada, feita de encaixes, de sonhos de engastes, de brilho falso e verdadeiro.

Sobremesa é tempo de romantismo. E assim é ainda, também, aquele momento que, por mais simples que tenha sido, pode terminar com o brilho suave daquele ponto final, tantas vezes exclamação lasciva, do golinho miúdo de um licor — caseiro bem preparado (jenipapo ou laranja, anis ou chocolate) ou industrializado e vindo de longe, glamouroso, bebida fina de marca. Elevando a sobremesa, o licor, mais outro presente do açúcar!

Quindins, brigadeiros, cocadas, queijadinhas, pudins, alfenins, beijinhos, melindres, sonhos, manjares, mingaus, tapiocas, canjicas, suspiros, papos-de-anjo, pés de moleque, bem-casados, arroz-doce, pão de ló, baba de moça, leite-creme, mil-folhas. A própria linguagem vai se adocicando, dando água na boca, as palavras vão amolecendo e arredondando à medida que penetramos a imaginação doce.

Balas de coco, doce de leite, ambrosia, pamonha, rapadura, rabanada. Bolos, rocamboles, cookies, musses, sorvetes. Confeitos, biscoitos, broas, tortas, compotas, glacês, cassatas, pastilhas, caldas, gomas, geleias, chutneys, coberturas. Tantos são os pecados do doce, suas tentações. Vasto seu campo de experiências, seus desvios, seus desvãos.

Há que se considerar, neste contexto tão especial, o papel todo carismático da calda, a calda de açúcar e seus pontos, essência de todas as compotas, e de muitos doces de frutas: solução de água e açúcar levada ao fogo, a calda é prima e ultima materia de uma alquimia do açúcar. Com ela começamos a elaboração de um doce, com ela tantas vezes esse doce atinge sua realização total, sua glória, seu sonho de doce. Seus pontos são estados animados da matéria doce: ponto de fio brando, ponto de fio médio, ponto de voar, ponto de quebrar, e o famosíssimo ponto de bala. A calda de açúcar é para o doce o que o caldo (de carne, de galinha, de vegetais) é na culinária de sal: base, força, fundamento e filosofia do doce.

Entre nós, brasileiros, o doce teve papel fundamental e adentrou a vida de forma singular: o açúcar “formou” o Brasil, definiu aspectos importantes da cultura brasileira, dominante como foi na economia colonial.[3] A sacarocracia, como pode ser chamado todo o sistema econômico/comercial/cultural de nossa época colonial,[4] forjou modos e hábitos que estão no coração da formação psicológica dos brasileiros. Criou tipos humanos de psicologia duradoura, como o senhor de engenho, as sinhás, as mucamas, as amas de leite, as pretas cozinheiras, a negra de tabuleiro…

O açúcar, paradoxalmente, revela muitas das crueldades históricas do mundo. A indústria do açúcar e a monocultura canavieira provocaram diretamente a escravidão de milhões de africanos nas plantations e nos engenhos de cana das Américas. Estima-se o deslocamento de mais de 10 milhões de africanos. No Brasil, a cultura do açúcar, do doce, também está ligada de modo intrínseco à “realidade tremenda da escravidão”,[5] na expressão de Gilberto Freyre, nosso “teólogo do açúcar”, autor de livro delicioso, Açúcar, estudo etnográfico dos doces e dos bolos nordestinos brasileiros, livro que iniciou propriamente uma sociologia do doce (fica por realizar-se, coisa que aqui tento esboçar, uma verdadeira psicologia do doce — a alma do açúcar, como ela é?). Essa cultura do açúcar é preto no branco, mão preta no cristal branco. É preto no branco com morenos, mulatos, mascavos, escuros, dourados, pardos, mais ou menos e outras morenices no meio. Custou suor, sangue e lágrimas.[6] Custo salgado.

 

 

No plano do doce, as iguarias ou as lembranças, as vivências ou seu desejo e sentido são em geral voluptuosos, inclinando-se à leveza e ao voo, a um levitar de sensações, a um desencarnar de emoções. Inflamáveis, voláteis são os sabores doces. Tudo beira o céu na experiência doce. O doce eleva, é alma que sobe, que inspira, que se aproxima do espírito e voa. O doce traz paz de espírito. A memória do doce é uma memória para cima, que aprofunda para cima.

Por ser da elevação, o doce é também do abismo. Toda elevação implica vertigem, e, no doce, o vertiginoso é lúdico, queda profunda na alegria e na culpa.

O açúcar, o doce, traz sempre uma fantasia de afetividade, de candura. As relações sempre profundas entre açúcar e coração levam-nos, por exemplo, ao hábito de presentear com doce. O doce (em geral guloseimas ou chocolates e bombons) entra no momento bom e no momento ruim. No bom para celebrá-lo, no ruim para consolá-lo. Celebração ou consolo, o doce denota afeto. Em geral, o doce desmancha na boca, convertendo em suavidade as durezas e asperezas da vida. Excessos de açúcar são, portanto, excessos do coração.

Num outro exemplo, também bastante significativo, a domesticidade mais profunda e a experiência reconfortante da intimidade da casa e das relações familiares não são descritas tão inteiramente por nenhuma outra locução que não “lar doce lar”. Lar é uma experiência doce em qualquer língua, em qualquer imaginário, e é doce para ser lar. Toda vez que estamos num “lar” estamos, portanto, num lugar doce, num estado de alma doce. O doce na locução entra para dar a chave da intimidade e do conforto. Também a chave do que está protegido e se basta. Sentir-se acolhido é uma experiência doce. Acolhimento: o colo é um lugar doce. A experiência do açúcar é fechada em si mesma, se autoprotege, como um lar. É um lar. Disso dá testemunho a doçaria sentimental de velhas receitas de avó, que sempre guardam segredos do preparo, da medida correta, do tempo preciso, nunca revelando inteiramente o procedimento certo, agindo com imprecisões herméticas, deixando sempre um pouco para a imaginação. Segredos de família.

O açúcar compensa mágoas, equilibra conflitos internos, apazigua ansiedades, modela angústias. Faz dormir, faz sonhar. Açúcar é carinho, carinho que ofertamos a nós mesmos ou aos outros. Conforta — como água com açúcar.

2. Alquimia do açúcar

Açúcar, do sânscrito sarkara (“material granulado”), chamado “doce droga” e “sal essencial” por André João Antonil (1649-1716), cronista, em seu famoso relato Cultura e opulência do Brasil por suas drogas e minas, do início do século XVIII, é a sacarose extraída da cana-de-açúcar, Saccharum officinarum L., planta originária da Índia, trazida à Europa mais tarde pelos povos árabes, e depois às Américas. Sukkar (árabe), saccharum (latim), sugar (inglês), sucre (francês), zucchero (italiano), zucker (alemão), azúcar (espanhol), sackar (russo), socker (sueco), suga (iorubá) são seus nomes, todos etimologicamente muito parecidos. É também o “sal branco”, o “sal doce” da Idade Média, entendido inicialmente como medicamento (para males digestivos e respiratórios, e também, até hoje, como cicatrizante e calmante), e depois como especiaria, tempero, “alimento-droga” (no sentido de ser considerado um estimulante) ou “droga quente” vinda das Índias orientais (no sentido de temperar o frio e o insípido da vida europeia, assim como o fizeram a canela, a noz-moscada, o gengibre). “Gênero alimentício cuja ampliação do consumo mais influiu na alteração dos hábitos alimentares”[7] do mundo, inicialmente raridade, depois um luxo nas mesas do século XVIII, o açúcar finalmente vira necessidade básica na era moderna.

Açúcar: dos mais puros aos mais refinados, dos naturais aos bastante processados quimicamente para atingir pureza, ou seja, brancura. Dos de uso mais caseiro aos de uso profissional; de produtos mais sólidos, escuros e sérios a poéticas pedrinhas transparentes que transportam a experiência doce, muitos são seus tipos: refinado (branco comum, pó fino ou extrafino); cristal; de confeiteiro (ultrarrefinado e peneirado); impalpável (seco, de confeiteiro acrescido de amido); orgânico (claro e dourado); demerara (açúcar cru); mascavo (escuro e úmido, açúcar bruto); cande. Ou os feitos a partir de frutas, milho, mel ou beterraba (isomalte). (E há, claro, os adoçantes artificiais — sacarina, aspartame, ciclamato, estsvia, sucralose, por exemplo —, que são simulacro do efeito doce, doces menores, e não entram numa alquimia do açúcar.) Artificialidade e pureza, todas elevações doces.

A “doce droga”, como a prima materia na alquimia hermética, recebe vários nomes ao longo do processo de seu aperfeiçoamento, antes de assumir finalmente o mais perfeito deles, açúcar. Assim Antonil descreve o processo de transformação, em 1711:

 

…conforme o seu princípio, melhoria e perfeição, e conforme os estados diversos pelos quais passa, vai também mudando de nomes. E assim, na moenda, chama-se sumo da cana; nos paróis do engenho, até entrar na caldeira do meio, caldo; nesta, caldo fervido; na caldeira de melar, clarificado; na bacia, coado; nas tachas, melado; ultimamente, têmpera; e, nas formas, açúcar, de cujas diversas qualidades falaremos, quando chegarmos a vê-lo posto nas caixas.[8]

 

Açúcar é tempero, açúcar é remédio. Suas funções (ou operações) são variadas. Como adoçante (um tempero que leva ao doce sabor aquilo que toca ou a que se mistura); como conservante (eficiente para alimentos que precisam enfrentar o calor, como frutas, ovos, gemas); para dar consistência (a quindins e caldas, por exemplo); para cristalizar.

Agora podemos avançar uma tentativa de “alquimicalizar” o açúcar como uma potente metáfora para diversas condições psíquicas. Agora vamos sonhar o açúcar!

 

 

O açúcar “filosófico”, sofisticado pela imaginação, metafórico das experiêncas doces, retém essas funções: adoçante, conservante, dar consistência, cristalizar. É indicador de uma condição psíquica (o estado doce), de um processo psicológico (o adocicar), e de um modo de patologizar (excesso de doçura, amargor). Essa condição psíquica apresenta a qualidade da doçura que se faz presente na alma e que se expressa na possibilidade de experimentarmos as coisas e as pessoas, e de nos relacionarmos com elas, de modo dócil — afável, suave, gentil, cordial, disposto a ceder —, por meio principalmente do sentimento e no plano do coração, a ênfase recaindo no sentir. Como processo psicológico, espontâneo ou induzido, faz-nos acrescentar essas qualidades de modo mais ou menos permanente àquilo que somos.

O Dicionário alquímico de Ruland, de 1612, ao falar de diversas quintessências como “remédios universais” que promovem o “prolongamento da vida”, menciona, entre elas, a “Quintessência do Açúcar”, favorável a todo tipo de temperamento, como um “remédio soberano” para, entre outros males, hidropisia (edema), consumismo, epilepsia e “confinamentos”.[9]

Paracelso dá ao açúcar um lugar entre os quatro “sabores” emocionais do corpo, ao lado de azedo, amargo e salgado. Ele entende que o doce, em seu caráter essencial arquetípico, é frio e úmido, o que então gera, se é predominante, um temperamento fleumático. Ora, o temperamento fleumático, do latim phlegmatìcus, indica frieza de ânimo; impassível, tranquilo e vagaroso. Aqui há uma disputa para saber se o temperamento que gosta de doce não seria, ao invés, colérico, o que indicaria uma inclinação mais indignada, enfurecida e passional.

Ao tetrassoma das substâncias alquímicas — que enumera sal, enxofre, mercúrio e chumbo como as principais componentes e os princípios dinâmicos fundamentais do universo (micro e macrocósmico) — falta o Açúcar. Sabemos que o tetrassoma compõe a Pedra Filosofal. A pedra dos filósofos terá Chumbo, que lhe dará “peso, gravidade, densidade, ponderação”; terá Sal “pois ela recorda e tem a interioridade do sangue, do suor, da urina e das lágrimas, uma sensibilidade que impede que a dor aguda e a imaginação volátil se dissipem”; também “é feita de Enxofre, ou não seria rica e gorda, vital e combustível, e assim não seria capaz de tingir e multiplicar”; e ainda Mercúrio, pois é “incapaz de ser capturada em definições… leve e pesada, venenosa e curativa… capaz, por causa da fusibilidade mercurial, de participar, de juntar-se, de dissolver, de significar alguma coisa sem perder a essência”.[10] Mas a pedra também deve ser doce, como deixam entrever tantos alquimistas medievais. Muitos deles falam de um humor doce nesse estágio da obra; “um humor doce, uma graça dos céus”,[11] diz também James Hillman. A qualidade doce integra a imagem arquetípica da pedra alquímica, pois nela está também o açúcar fazendo parte do lapis philosophorum.

Na obra de cultivo da alma, lutamos honestamente com nosso amargor para que ele se torne doce, pois sabemos que a pedra não é pedra se não for também doce.

Assim, parece-nos que adocicar é uma espécie de meta da opus magnum, isto é, faz parte das metas alquímicas ao lado de tantas outras imagens de sofisticada metaforização: o ouro, a pérola, o diamante, o sol, o hermafrodito, o zênite vermelho da luz, rubedo, a pedra filosofal.

 

 

Na alquimia do açúcar, a experiência doce é sempre uma experiência de elevação, ou que busca o espírito, a transcendência. Busca uma experiência de pico. A curva glicêmica que o diga, e também toda a rica e forte tradição de doces conventuais, feitos pelas mãos de freiras e monges anônimos, a doçaria tradicional dos conventos e mosteiros no mundo todo, revelando mais que tudo que bem entende de açúcar quem entende do espírito.

Inflamáveis, voláteis são os sabores doces: isso nos leva a considerar a efemeridade do doce, a saber, o fogo do açúcar. O elemento fogo no açúcar inflama, aquece a alma, faz a psique gozar, é uma alegria excitante. O doce é notório substituto do amor ausente. E doce é sempre o desejo. Docemente desejamos. O desejo e o doce, ou seja, a conjunção de enxofre (sulphur) e açúcar (saccharum) mostra que é doce desejar, e que desejar adocica a alma.

João Cabral de Melo Neto, alquimista da pedra sertaneja, conhece bem essa volatilidade do açúcar, e nota em sua “Psicanálise do Açúcar” (poema de Educação pela pedra, livro de 1965):

 

O açúcar cristal, ou açúcar de usina,
mostra a mais instável das brancuras:
quem do Recife sabe direito o quanto,
e o pouco desse quanto, que ela dura.
Sabe o mínimo do pouco que o cristal
se estabiliza cristal sobre o açúcar,
por cima do fundo antigo, de mascavo,
do mascavo barrento que se incuba;
e sabe que tudo pode romper o mínimo
em que o cristal é capaz de censura:
pois o tal fundo mascavo logo aflora
quer inverno ou verão mele o açúcar.

 

 

Sugiro que o açúcar é uma experiência adquirida no branco alquímico, na fase albedo do processo de transformação da matéria almada, uma experiência feita para quem sabe, deseja ou já está pisando uma terra branca, tendo a anima como base. Bachelard fala da paisagem lunar coberta de “vidrilhos de açúcar”.[12] Essa terra branca cristalizada e pura do açúcar é onde depositamos nossa inocência recuperada. Só quem vive inteiramente na Lua entende inteiramente o açúcar e a experiência doce. Como a albatio, esse branco do açúcar filosófico é aquela doçura alcançada, doçura que é fruto de elaborações tantas vezes amargas e violentas nas câmaras sem luz da alma. Dentro de nós, esse branco do açúcar, essa pureza, essa docilidade, refere-se portanto a um branco trabalhado, atingido por meio de operações de violento sofrimento, que purifica o negro mascavo, o mel preto da vergonha e da culpa, do desespero e das patologizações, em cristal — cristal que é uma aurora, manhã doce alcançada. O açúcar branco refinado é mascavado por dentro, assim como dentro da albedo alquímica estão os estágios anteriores de nigredo, de negror, de sofrimento e melancolia amarga, de desespero plúmbeo. No fundo da doçura alquímica está um amargor. No açúcar também um branco emerge do preto, branco que aparece “por cima do fundo antigo” mascavado.

O doce conforto da albedo lunar participa da pedra como um branco que é doce e que é capaz de adocicar mundo e alma. O açúcar adocica a Pedra. A aurora (albedo) é doce, depois da noite escura da alma (nigredo); emocionalmente, é sentida como um alívio doce. A albedo é doce e leva essa doçura para a Pedra (rubedo). Mas na pedra essa doçura está plenamente realizada, não apenas sentida ou meramente apreciada como uma ideia, não apenas na mente. Ainda assim, esta é “a mais instável das brancuras”.

 

 

O doce incide de modo diferente que o amargo, o azedo, o salgado, o acre. Esses contrastes inspiram.

Consideremos primeiramente as dialéticas do doce e do amargo. Essas são as relações do açúcar com sua sombra. O contrário da doçura não é o salgado, mas o amargo. O efeito do açúcar neutraliza um pouco do amargo, ou do azedo, equilibrando a agressividade presente em todo gosto amargo. O que é doce suaviza uma dor.[13] A sombra da doçura é destrutiva, amarga as experiências e a própria alma. Com um poder agressivo, vemos que funciona no fundo do açúcar um ferrão doce/amargo. Cobra de nós a ingenuidade. Esse pungir do doce precisa ser considerado, pois é seu amargo, e faz parte do açúcar. O amargo quebra, analisa, separa, e tem um peso que nos deixa no chão, atados à matéria. “Que amargor há no coração de um ser que a doçura corrói!”,[14] disse Bachelard.

Ao pensarmos agora nas dialéticas do açúcar e do sal, percebemos que o açúcar se dá à imaginação de forma ainda mais delicada e requintada que o sal. O sal traz para a personalidade aquela base estável que é extraída principalmente das experiências de dor, extraída mais precisamente das essências nelas envolvidas: sangue, suor e lágrimas. As experiências que nos envolvem com esses líquidos são salgadas, trazem sal. Nesse nível, sal tem a ver com sofrimento; açúcar tem a ver com prazer. O sal traz coesão, fixação e conservação; traz um centro. O açúcar traz volatilidade, elevação, sonho; traz uma explosão dos sentidos, e uma multiplicação dos centros. O açúcar antecipa a multiplicatio. O sonho do sal tem um pouco de senex. O sonho do açúcar tem um pouco de puer. O sal filosófico é permanência, solidez, consistência, enquanto que o açúcar filosófico é efemeridade, fugacidade, volatilidade. Para Bachelard, o sal é “um princípio da concentração ativa”,[15] quando poderíamos dizer que o açúcar é o princípio do voo.

Porém é preciso lembrar que tanto sal demais quanto açúcar demais amargam a alma; há neles, com efeito, uma propensão interna amarga.

 

 

Não podemos, no entanto, literalizar doçura em açúcar. Mas a imagem mais sofisticada desse doce alquímico na Pedra é certamente encontrada no Açúcar. O açúcar da cana é o padrão universal de doçura.

Devemos concluir que diante da imaginação sacarina a alma adquire certa virtuosidade, própria daquilo que podemos chamar de uma intensificação da ternura. A intensificação da ternura será sempre a medida do açúcar.

 

(Publicado originalmente em Cadernos Junguianos 10 – 2014, pp. 131-140, Revista anual da Associação Junguiana do Brasil, São Paulo.)

 

 

Referências Bibliográficas

 

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JUNG, Carl Gustav. Mysterium coniunctionis, em The Collected Works of C. G. Jung, volume 14, referidos pela abreviatura CW seguida do número do parágrafo.

LODY, Raul (2011). Vocabulário do açúcar: histórias, cultura e gastronomia da cana sacarina no Brasil. São Paulo: Editora Senac São Paulo.

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VENÂNCIO, Renato Pinto; CARNEIRO, Henrique (orgs.) (2005). Álcool e drogas no Brasil. São Paulo: Alameda Casa Editorial.

 

[1] Gilberto Freyre, Açúcar: uma sociologia do doce, com receitas de bolos e doces do nordeste do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1997, p. 48.

[2] Gilberto Freyre, op. cit.

[3] “O açúcar — que se fez acompanhar sempre do negro — adoçou tantos aspectos da vida brasileira que não se pode separar dele a civilização nacional” (Gilberto Freyre, op. cit., 1997, p. 55). “Durante o período decisivo da formação brasileira, a História do Brasil foi a história do açúcar” (Gilberto Freyre, Nordeste: aspectos da influência da cana sobre a vida e a paisagem do nordeste do Brasil. São Paulo: Global, 2004, p. 49).

[4] Henrique Carneiro, Comida e sociedade: uma história da alimentação. Rio de Janeiro: Elsevier Editora, 2003, p. 88.

[5] Gilberto Freyre, op. cit., 1997, p. 61.

[6] “Ao observador do século XVII chocava a imagem de pesadelo, do trabalho nos engenhos do açúcar. Fogo, suor, negros, correntes, rodas, caldeiras ferventes compunham o quadro de labor incessante das fábricas de açúcar, diuturnamente, nos meses de safra, de agosto a maio” (Vera Lúcia Amaral Ferlini, A civilização do açúcar. São Paulo: Editora Brasiliense, 1984, p. 45).

[7] Henrique Carneiro, Comida e sociedade: uma história da alimentação. Rio de Janeiro: Elsevier Editora, 2003, p. 87.

[8] André João Antonil, Cultura e opulência do Brasil (1711). Belo Horizonte: Editora Itatiaia, 1997, p. 124.

[9] Martinus Rulandus, A lexicon of alchemy (1612). Kessinger Publishing, p. 444-45, verbete erbete 5, verbete g,

[10] James Hillman, Psicologia alquímica. Petrópolis: Editora Vozes, 2011, p. 376-77.

[11] James Hillman, op. cit., 2011, p. 252.

[12] Gaston Bachelard, A terra e os devaneios da vontade. São Paulo: Martins Fontes Editora, 1991, p. 70.

[13] “…a água suaviza uma dor, portanto ela é doce” (Gaston Bachelard, A água e os sonhos. São Paulo: Editora Martins Fontes, 1998, p. 163, capítulo VII, “A supremacia da água doce”).

[14] Gaston Bachelard, op. cit., 1991, p. 70.

[15] Gaston Bachelard, op.cit., 1991, p. 209.