A VIDA PSICOLÓGICA

Por 4 de setembro de 2017Inicial

mini ensaios

 

Ser psicológico significa ver a mim mesmo nas máscaras desta ficção particular que é meu destino representar.
—James Hillman
Ficções que Curam

 

 

 

  1. Mini ensaio

Tenho gostado de escrever os mini ensaios, são muito atraentes. Escrevê-los novos ou retirá-los do que já escrevi, como fragmentos, às vezes modificando algo. Concisos e poderosos a seu modo, neles pode haver muita sugestão de sentidos em pouco tempo/espaço. O mini ensaio está para o ensaio assim como o hai-kai está para o poema longo. O mini ensaio é o hai-kai da prosa.

 

  1. Velho e novo

Quando as perguntas e respostas se entendem, temos um discurso completo em andamento, temos senex e puer, passado e futuro, velho e novo, a dança da vida. “Perguntas” e “respostas” são outras palavras para senex e puer.

 

  1. S de simetria

Numa bela página de James Hillman, do livro O mito da análise, precisamente em seu terceiro ensaio, “Sobre a Feminilidade Psicológica” (originalmente uma conferência proferida nos Encontros de Eranos, em 1969), encontro esta que pode ser compreendida como uma definição de simetria que nos serve e orienta:

Quando os opostos não são concebidos como simetria, como independentes e distintos e, contudo, reciprocamente necessários, a coniunctio resultante será desequilibrada.

Segundo a inspiração dessas palavras, simetria será um tipo de relação entre dois polos, não necessariamente opostos, na qual eles possam se perceber e se manter como independentes — ou seja, livres e livres um do outro, ou seja, não sujeitos a qualquer tipo de dominação ou constrangimento — e distintos — ou seja, diferentes, quando esta diferença pode ser apreciada e vivida, e não rechaçada (nos estilos que abrangem desde a rejeição pura até a paranóia delirante) — e, ainda assim, mantendo-se num arranjo que é possível pelo entendimento de serem mutuamente necessários, onde a necessidade é um prazer e uma abertura, não um aprisionamento ou uma ruptura.

 

 

  1. D de doce

Todo repasto, modesto que seja, finaliza-se com uma sobremesa. A sobremesa é o momento mais sensual da refeição, e a ela naturalmente pertence o doce, principalmente o doce. Coroando a refeição, doce é o que vem depois, trazendo sempre a qualidade do irresistível, exaltando a alimentação. O doce de sobremesa marca o zênite do prazer bucal ligado ao alimento: na ponta mais avançada do repasto está a elaboração doce. Elaboração passional. Várias culturas entenderam e praticaram isso. A sobremesa puxa pelo fundo mais irracional e pelo desejo puro, também desejo de pureza. O momento da sobremesa, muitas vezes mais preciosamente esperado que a própria refeição salgada — sobremesa em casa ou fora dela em restaurantes e confeitarias — é sempre um momento delicado, de expectativas profundas, luxuriantes, penetrando dobras rebuscadas da alma onde muito de satisfação está em jogo explícito, onde dançam os humores mais voláteis, mais exigentes, mais capazes. É, ao mesmo tempo, momento de relaxamento dos sentidos, de mais e mais imaginação, trazendo cores, formas e sabores mais livremente que a seriedade do sal, quando até a obrigação biológica de alimentar o corpo físico relaxa, afrouxa-se, sonha e brinca. A nutrição doce é uma nutrição lúdica, explora e excita a criança arquetípica.

 

 

  1. Controle/descontrole

A sensação maravilhosa de que está tudo sob controle, sensação que nos organiza por dentro e por fora, e que nos remete a uma paz paradoxal, tornou-se, para muitos de nós hoje, um dos bens de consumo mais preciosos, buscado por meio de todos os esforços, às custas muitas vezes de toda a saúde, e com aquela sinceridade particular e habitual que somente dispensamos a nossos medos e nossas apreensões mais íntimas, a nossa morte, sinceridade que entregamos somente àquilo que de fato nos faz mal. O binômio controle/descontrole rege hoje nossos hábitos e temperamentos psicológicos como nunca antes se imaginou ou se quis. Está presente nas experiências paranóides que atravessam nosso dia-a-dia desapercebidas, está presente nos sintomas de pânico que, mais ou menos difusamente, todos sofremos, e presente também no amor, no trabalho, na alimentação, nas práticas de saúde e de cidadania.

 

 

  1. Jogo de palavras

Dizer “apenas um jogo de palavras” é o mesmo que dizer “apenas um sonho, apenas um mito, apenas uma fantasia.” Um jogo de palavras nunca é “apenas”: ele sempre abre para a alma, como uma maneira de abrir a fala da alma, ou já a alma se expressando, o jogo é uma de suas formas de expressão: brincalhona, jogando com o intelecto, subjugando-o, super-julgando-o, relativizando-o.

 

 

  1. I de interioridade

O apelo ao interior, à interioridade, à interiorização, à introversão, ainda que inclua essa dimensão exatamente como a possibilidade da entrada da alma do mundo na terapia, exerce um tal contínuo poder, um tal fascínio para a psicologia que só pode ter um suporte divino, mais que humano. Esse suporte apresenta-se precisamente no culto a Héstia. A análise é também um ritual de Héstia por ser ela exatamente o poder arquetípico que suporta a direção rumo à interioridade — movimento sombreado que se confunde com a própria definição de alma. É em função de Héstia que há um fogo sagrado na terapia, e por ela ele é mantido e cultivado.

 

 

  1. R de repetição

A alma volta sempre às suas mesmas feridas, ela insiste sempre nas mesmas figuras e emoções, vemos os mesmos temas nos sonhos por muitos e muitos anos. Desse ângulo, a psicopatologia aponta para a circularidade da alma, outra noção muito antiga. A alma repete-se infinitamente, e na repetição está uma tentativa de aprofundamento. A alma volta constantemente às suas feridas para extrair delas novos significados; volta em busca de uma experiência renovada. Ficamos familiarizados com nossos complexos e nosso sofrimento. O ego, identificado com o arquétipo do herói, chama a repetição de neurose. Mas na repetição, na circularidade, o ego é forçado a conscientizar-se de que há uma outra força governando a coisa toda. Na repetição o ego é forçado a servir à psique. Há um aspecto ritual aqui, uma humilhação. A circularidade, por fim, nos personaliza. Do ponto de vista da alma, a repetição é uma maneira de nos tornarmos aquilo que somos.

 

 

  1. L de limite

Mas há ainda outra maneira de se falar em limites na psicologia: nossas feridas, ou o que a alquimia chamou de “agentes coagulantes.” São nossas limitações que não mudam, nossas duras e impertigadas queixas movendo-se muito lentamente, nossas persistentes patologias, os complexos imutáveis que marcam nossa personalidade, nossos motivos e nossas necessidades permanentes, nossos traços correntes e sintomas recorrentes — aquilo que Hillman chamou de nossa “desordem crônica,” e Berry de “a base da personalidade.”

 

  1. I de imagem

A imagem é um ato: não é um espelho, mas um espelhamento. Como a alma, a imagem é uma perspectiva, não uma substância. Um modo de ver as coisas, não coisas que vemos, como sugeriu Edward Casey. Mas… não estaríamos assim de volta ao animus e suas ações? Não, a imagem é um ato da alma. E a ele devemos responder neste nível: imaginando.

 

  1. A de amor

O amor é sempre exigente, sempre nos levando ao limite, de um jeito ou de outro — limites de nós mesmos, limites de nossa compreensão, limites culturais, emocionais. O amor leva a alma para onde deseja. “A flecha cai onde quer, só nos resta segui-la” (Hillman). Ele nos deixa na fronteira, é fronteiriço ele mesmo, sempre algo entre loucura e sanidade. Loucos de amor, dizemos. E o que não fazemos por amor? Quem já não experimentou? O amor quer sempre nos tirar de nós mesmos, e talvez seja isso o que se apaixonar significa: é uma queda (fall in love), uma queda para fora de nós mesmos — somos outros, somos o Outro. Um tombo. E, no entanto, nesta queda, paradoxalmente, é quando estamos mais transparentes: uma queda para dentro de nós mesmos. É uma solução no sentido alquímico, solutio, algo que nos dissolve, que nos descontrói.

 

 

  1. Sobre comida e amizade

O feixe de sentidos que enlaça as emoções que se encontram entre comida e amizade, a lembrança de estar entre amigos comendo, celebrando e cultivando os afetos da amizade sincera junto à alimentação, é uma experiência humana das que mais asseguram um sentido de existência psicológica.

 

  1. F de fim

O termo é o fim de uma imagem. A imagem, toda imagem, quer alcançar seu termo, o termo que a explicite. O termo é o telos da imagem.

 

  1. Visível/invisível

A imagem — liberta da lógica da representação, a lógica da cópia, do símile — ao mesmo tempo em que torna algo visível (e visível não apenas no sentido ótico), simultaneamente torna algo invisível. Uma concepção de imagem baseada apenas na experiência da ótica não pode compreender a complexidade da imagem psíquica, que está baseada na simultaneidade ou na abolição de sua própria inscrição na categoria do tempo.

 

  1. S de sofrimento

A noção de sofrimento de nossa cultura cristã é agônica, a agonia do sofrimento. Mas sofrer é receber o sofrimento como uma perspectiva; vivê-lo é receber uma perspectiva num campo politeísta.

 

 

  1. S de somos

Um sonho diz quem você é e onde você está.

 

  1. S de sonho

Borges disse que os sonhos são o mais antigo dos gêneros literários, uma criação dramática, como se à noite fôssemos todos dramaturgos. Jung também via os sonhos dentro desse enquadre, digamos, dionisíaco: o sonho como um pequeno drama. Borges também disse que quando sonhamos, voltamos a uma antiga forma, e que essa forma é o mito, que é anterior a tudo. Que possamos sempre embarcar nessa viagem dos sonhos, nessa nekya, despojados de preconceitos emocionais e psicológicos, livres das pesadas conceitualizações da psicologia moderna que não nos devolvem a realidade psíquica ou um sentido de alma, para podermos apreciar, com a radicalidade e a realidade necessárias, a outra margem desse imenso rio heraclítico, fazendo-nos presentes nela por algum momento, livres de toda a esperança, enriquecendo-nos com sua lógica íntima e sua sabedoria infindável.

 

  1. N de novo

Duas ideias interessantes sobre o novo que vêm da psicologia arquetípica. A primeira vem de James Hillman, em seu ensaio sobre o puer e a verticalidade: “O único verdadeiro novo é aquele que é sempre novo, para além do envelhecimento, totalmente transcendente ao tempo.” A segunda vem de Patricia Berry, em seu ensaio sobre a paixão de Eco: “Essa tensão é que dá ao novo seu sentido de algo estranho (e original), e também requer que o novo chegue formalmente a um acordo, mais cedo ou mais tarde, de um jeito ou de outro”.

Para sublinhar as afirmações dessas citações, só é novo o que é sempre novo. O novo é eterno, não um momento no tempo. Só é novo o que escapa do tempo. Não o aqui-e-agora, mas o nunca-e-sempre. A revolução dura um dia, no dia seguinte é governo, instituição, lei. E mais: se você estiver experimentando confortavelmente e gostando de algo que parece novo, desconfie: não é o novo, é o velho disfarçado; o novo é sempre estranho, bizarro, fora do esperado, causa estranheza e resistência. O novo não é uma zona de conforto.

 

  1. Silêncio/palavra

Olhares não se referem necessariamente a visibilidades. Os sons não se referem literalmente a sonoridades.

O silêncio é a palavra não dita. A palavra é o silêncio dito. Dois lados da mesma coisa: silêncio-palavra.

 

  1. A pele da alma

A alma é o primeiro dentro/fora. Com ela aprendemos as fronteiras, os limites, como ousá-los, como ouvi-los, e quando respeitá-los. Como lidar com dentro/fora, eu/tu: fronteiras.